Ananda Santana, a ilustradora que nos contou como é ser artista negra independente no Brasil

Além de ilustradora, ela participa de crews de graffiti como forma de visibilidade a cultura negra no brasil.
Estudos importantes sugerem que a arte e o esporte são correntes importantes de diminuição da violência no contexto da periferia, que arte muda destinos e vidas, todo nós sabemos, mas como é ser uma artista negra no país, no meio de uma pandemia e ainda enfrentando todas as barreiras de racismo, visibilidade e engajamento da cultura afro brasileira? as redes sociais nos permitem que cada vez mais nós nos aproximemos de nossos ídolos e artistas, que possamos servir de influenciador para as pessoas, mas é diferente quando se trata de artistas independentes.
Dessa maneira, para que possamos debater esse tema e os conceitos que ela nos trás, é necessário compreender o cenário que estamos vivendo.
Nos últimos meses, a pauta de racismo, preconceito e vidas negras cresceram de forma abrupta no mundo, após uma ação policial, George Floyd morreu em plena luz do dia na cidade de Minneapolis na mão de policiais brancos, imagens essas que esclarecem o que é o racismo estrutural na sociedade.
O que pareceu apenas mais um caso, tornou-se um objeto de manifestações e questionamentos por justiça nas ruas dos estados unidos.
Artistas, influencers e pessoas de extrema importância social tiveram grande papel nesse momento e ainda mostram como eles podem ajudar na luta antirracismo.
Ainda no contexto que estamos vivendo, numa pandemia, sair de casa para protestar e lutar por democracia e respeito só demonstra o quão importante é o que a sociedade esta se movendo para fazer.
Contudo, o momento ainda é de grande medo, o isolamento social tem permitido que novas formas de viver sejam criadas, estilos de vidas estão nascendo e a forma como éramos já não será mais possível. Mas há um nicho ainda mais especifico que precisamos destacar. As artistas negras no Brasil, principalmente as que vivem na periferia, que até o momento registram um número considerável de mortos por COVID-19. Mas além da doença que mudou a nossa vida e a nossa rotina no mundo, a periferia tem uma relação diferente com a morte, devido a violência, desemprego, fome e outros motivos sociais.
Dessa forma, para compreender como é ser uma artista negra no Brasil, entrevistamos uma jovem artista negra, uma ilustradora que mora em Salvador- Bahia, que descobriu na arte uma forma de mostrar como é a sua cultura, seus traços, ancestralidade e vida.
Uma baiana que mora numa vila de pescadores Itapuã, que foi enredo para os versos de Vinicius de Moraes, Ananda Santana, uma mulher negra de 24 anos, que está se formando em artes na universidade federal da Bahia, começou a desenhar desde pequena mas há 4 anos a arte de rua e o Graffiti são o palco para suas ilustrações. Seu trabalho tem como inspiração mulheres negras que vivem no seu contexto de vida, observações de mundo e representações da cultura afro brasileira. Ananda conta que começou a ilustrar profissionalmente afim de representar realidades que pouco foram vistas,”cresci sem me ver nos desenhos e na mídia e hoje consigo fazer com que meninas como eu, consigam se ver nas ruas, nos desenhos e nas revistas e esse é o meu objetivo no momento” completa Ananda.
Foto: Arquivo Pessoal

Quando perguntada sobre suas referências, a ilustradora de Itapuã, contou sobre a observação que faz para ilustrar. “Busco referências de mulheres próximas, de certa forma, costumo olhar uma foto e imaginar a mesma como desenho” afirma Ananda
“majoritariamente por questão de representatividade e da voz, a arte urbana é muito democrática” completou.
Ainda sobre a representatividade a grande dúvida é se ha mulheres como Ananda no bairro onde ela vive que também vive da arte e fazem o mesmo trabalho que ela, em conversa Ananda conta que participou de coletivos de graffiti em sua cidade, onde mulheres que grafitavam se reuniam para trabalharem juntas em projetos, mulheres que segundo Ananda, facilitava suas idas á ruas, que elas compartilhavam do mesmo trabalho e se apoiavam mutuamente.
Mulheres como Mônica Reis e Annie Ganzala, iniciaram a vida artistica antes de Ananda e hoje são referências, mas que enfrentam dificuldades em fazer arte e ocupar ruas como graffiti em Salvador, mas que conseguem movimentar a cultura local.
Quando perguntada sobre a pouca visibilidade e representatividade da cultura preta no país, Ananda afirma “Visivelmente sim! há muitas mulheres não brancas que estudam e pintam bastante mas que não conseguem ser vistas da forma que merecem” que atribui isso também a forma como consumimos arte, onde precisamos buscar mais, pesquisar mais e dar voz para esses nomes que surgem.
“Acredito que tem espaço para todo mundo, mas a distribuição dos mesmos é desigual. Há muita mina trabalhando e muito em suas regiões, na minha percepção há muita mulher surgindo, colocando a cara mesmo, se mostrando artista, protagonistas” completou.
Sobre feedbacks de pessoas que se sentem representadas, questionamos Ananda sobre como isso influencia no trabalho dela que conta que é um incentivo a mais ao seu trabalho
e um sinal de que esta dando certo seu trabalho, “Meu público feminino é minha força, é o que me motiva a continuar, esse troca é muito leal, quando estou pintando nas ruas e vem uma menina, uma senhora por exemplo elogiar meu trabalho é um combustível sabe?!”
Além da visibilidade e dar voz a uma artista negra, o machismo é algo que permeia ainda dentro do mundo artístico, sobretudo, na arte de rua.
Quando falamos sobre isso, Ananda acredita que mulheres podem ser vistas pelo seu trabalho, mas é uma questão mais estrutural do que de visibilidade mas que é preciso unir para que isso seja combatido de alguma forma, “precisamos fortalecer mais mulheres negras, precisamos ouvir mais, aprender com elas, dar subsídios para que as mesmas não desistam dos seus objetivos por motivos como falta de moradia ideal para a realização de alguns trabalhos, falta de recursos para se manter e etc..” que completa afirmando que é preciso equiparar as bases e buscar a igualdade para ambos os genêros.
“Arte é caro, muitas vezes é preciso decidir se irá comprar uma material ou honrar com alguma necessidade doméstica, ou social , então para que haja uma visibilidade que esperamos, se faz necessário uma equiparação às bases, é praticar de fato a ideia de uma puxar a outra, quem conseguiu chegar lá incentivar para que outras consigam chegar também” completou.

Arte de Ananda em Salvador feita no Crew de Graffiti feito por mulheres - (Reprodução/ Arquivo Pessoal)
O mundo vem se modernizando e cada vez mais artistas como a Ananda são fundamentais, a ilustradora afirma que é necessário fazer arte, mesmo que muitas vezes seja desfavorável e perceber que as pessoas próximas gostam e se inspiram com a arte,”não tenhamos esse “esperado” reconhecimento grandioso, há outras grandiosidades que importam muito e que são combustíveis para continuar.” concluiu Ananda.
Vivendo em uma pandemia, as coisas mudaram em nossa rotina e em nosso dia a dia, as artistas se utilizam ainda mais das ferramentas das redes sociais para dar visibilidade ao seu trabalho,mas antes de tudo parecer distante de nós, como era a rotina de uma ilustradora? Ananda nos conta que sempre trabalhou para custear seus estudos e ajudar em casa, o que é a realidade de milhões de brasileiros, a ilustradora que trabalhava e estudava durante a semana, esperava os fins de semana para se dedicar a ilustração e ao grafite, mas que aproveitava a semana corrida para estudar e observar o que viria a se tornar um desenho.
Mas com o isolamento social, algumas coisas mudaram, as outras tarefas diárias se tornarem menos presentes, “ganhei bastante tempo, tenho produzido muito mais, é o que tem me ajudado a ficar bem! Está sendo uma maneira de estudo, de aprendizado, para quando pudermos voltar colocar um pouco disso nós graffitis né?” afirma Ananda, que utiliza suas redes sociais para divulgação de seu trabalho.
Como o trabalho da Baiana de 24 anos é bastante observatório, não poder sair de casa tem mudado a forma como ela se inspira ao desenhar, mas afirma que tem procurado novas formas de tirar referências para o seu trabalho, “na verdade é muito difícil focar nesse momento, por mais amor que tenhamos ao nosso trabalho, estamos pensando na pandemia, no que vem depois, toda a ansiedade existente, tudo isso influi muito no momento de criar, mas que de certa forma criar está sendo um alívio” completa Ananda.
Foto: Arquivo Pessoal

Além do contexto que estamos passando, divulgação e visibilidade a artistas pretas é importante, sobre isso, perguntamos a Ananda sobre como ela em meio ao isolamento trabalhará para dar visibilidade a sua arte. Ela afirma que há uma troca e uma interação entre os artistas e que isso tem fortalecido seu trabalho e consequentemente dos demais. “Mas tratando-se de visibilidade, o que tenho feito é basicamente postado meus trabalhos, trocando mensagens com outros artistas, nos ajudando mutuamente, interagindo, para que possamos subir juntos, no momento estou produzindo há trabalhos que divulgo outros não, vamos ver o que acontece quando tudo isso passar” disse Ananda.
Ainda assim, há dificuldades no meio artístico como em todas as áreas nesse momento, a ilustradora e grafiteira, conclui a entrevista com reflexões sobre como consumir arte, não somente no isolamento social, mas daqui pra frente, com as pautas importantes que estão sendo levantadas, as discussões em torno de todas as notícias de racismo que é veiculado na mídia, as coisas não serão como antes, mas é preciso debater e construir narrativas que mudem a realidade dos jovens brasileiros. Apesar do cenário, ainda é necessário a re significação de muitas pautas levantadas através da arte e da inclusão dos jovens.
A ilustradora e graffiteira, Ananda Santana, finaliza com uma mensagem de paz para os próximos momentos, “Vamos usar desse momento para levar arte de conscientização, de cuidado, conforto, acalento, paciência, um pouco do que estamos precisando neste momento”




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