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Representação negra na literatura infantil: uma questão crucial

Foto do escritor: Gabrielle Caroline
Gabrielle Caroline
4 de jun. de 2020
5 min de leitura

Atualizado: 26 de jun. de 2020

A alta da procura de livros protagonizados por personagens negros nos últimos anos mostra que a população negra segue em busca de representação na literatura brasileira, em especial na literatura infantil.

Como essa representação pode ser importante para as crianças?


Foto: Reprodução

Representação negra na literatura infantil: uma questão crucial
A inexistência da representação negra na literatura

A falta de representação negra na cultura popular brasileira é uma questão histórica: seja em filmes, novelas ou peças, os poucos personagens negros existentes são representados como vilões, colocados em papeis de servidão aos brancos ou estereotipados em núcleos cômicos. Essa é uma questão que se repete também na literatura: enquanto o número pequeno de personagens negros existentes nos livros são geralmente relegados aos papeis citados anteriormente, raras são as vezes em que se consegue encontrar negros tendo papeis de protagonismo em obras populares brasileiras.


“O mercado editorial é o reflexo da sociedade, além do livro ser considerado um símbolo erudito, na qual a população negra não está integrada”, explica Ketty Valencio, proprietária da livraria Africanidades, especializada em literatura negra e feminista. “Recentemente, com a colaboração efetiva do movimento negro, muitas pessoas negras tiveram a sua autoestima resgatada e, assim, querem saber sobre sua história, origem, seus antepassados e também querem compartilhar suas narrativas na forma textual ou oralmente. Consequentemente, houve um aumento na procura e também de publicações realizada por autorias negras e protagonizadas positivamente por personagens negros.”


Não é possível ver o reflexo dessa procura com dados, já que, no Brasil, nenhuma das associações relacionadas à literatura promove uma pesquisa com a contagem oficial de publicações ou vendas de livros protagonizados por personagens negros, mas isso não é algo que impede a compreensão da necessidade de identificação com os personagens das histórias: a vivência dos leitores e a visão de profissionais da educação que lidam com crianças e adolescentes podem ser usados e são de extrema importância para essa percepção.


“Eu nunca tive contato com personagens pretos na literatura. Eram sempre descritos como brancos e com os traços do padrão de beleza europeu e não poder me enxergar naqueles livros apenas me fez achar que aqueles personagens eram bonitos e eu não”, declara Matheus Lima, 21, estudante de psicologia que morou em uma comunidade até os dezoito anos. “O meu primeiro contato com um material que eu me senti realmente representado foi com "O Ódio que Você Semeia". A violência policial, o povo marginalizado e a perseguição diária estavam muito mais próximos do meu cenário de existência do que os personagens brancos. Poder me visualizar naqueles personagens provocou uma catarse enorme.”

Um dos livros utilizados pela rede pública
Um dos livros utilizados para discussão com crianças

Para que cada vez mais leitores tenham ainda na infância experiências como a que Matheus teve, existem autores e editoras que compreenderam a necessidade a publicação de livros com protagonistas e outros personagens negros. Mesmo com a dificuldade que grande parte dos brasileiros possui de ter acesso à livros, o ambiente escolar é um dos lugares onde as crianças podem ter acesso à essas obras desde o início do processo educacional.


Foto: Reprodução


“O tema [representação racial na literatura] percorre todo o período escolar. É claro, cada ano focando num aspecto, ampliando o repertório e discussão com relação à esses temas”, explica Maria Aparecida Pacheco, professora do E.M.E.I. 25 de Janeiro. “Você lê algumas histórias com a temática étnico racial, tanto de temática africana como de temática indígena. Nós fazemos, no decorrer do ano, diversas leituras. Então, a gente seleciona um personagem da literatura africana e desenvolvemos o projeto. São leituras, rodas de conversa, pesquisas”, continua. “A gente conta muito com o auxilio da família nessas pesquisas”, diz, para depois exemplificar: “Trabalhamos esses temas com leituras de lendas, então, quando você contava, por exemplo, a lenda do Negrinho do Pastoreio, você já remetia à situação da escravidão, fazia um debate, trazia informações sobre esse período pra criança.”


Os livros utilizados pela rede pública de ensino de São Paulo para promover o debate são variados. Protagonizados por meninos ou meninas, contando histórias em mundos de fantasia ou em cenários reais e conhecidos, escritos por autores pouco conhecidos ou por autores famosos mundialmente, todos tem um objetivo em comum: resgatar a identidade e a cultura negra, promovendo a inclusão da criança e combatendo, desde cedo, preconceitos formados pela sociedade. Até mesmo livros antigos, que tem recebido críticas devido à maneira que tratam o tema, são utilizados para debate. “Eu acho importante você fazer a leitura justamente pra debater com as crianças essas questões que incomodam”, esclarece Maria Aparecida.


E os resultados e a importância da representação, dos projetos e dos debates pode ser vista em sala de aula.


Obra de Ziraldo é um dos livros infantis com protagonismo negro
Obra de Ziraldo é protagonizado por uma criança negra

“Eu tinha uma criança que toda vez que ela esse auto retrato, ela pintava o cabelo de loiro, de amarelo, e a pele de rosinha. Era como ela se via. Essa atividade ocorre várias vezes no decorrer do ano. E assim, eu ficava muito aflita por que ela não se via como uma criança negra. Ela não se via. Foram várias conversas, várias leituras, várias representações que eu tive que trazer pra sala de aula, pra ela se aceitar”, conta Maria Aparecida. “Bem quase no final do ano, ela fez o último registro dela. E aí sim, nesse dia, ela conseguiu fazer o cabelo dela num formato mais de cacho, não aquele formato liso, e fez de uma cor escura. Pintou a pele dela de uma cor aproximada.”




Foto: Reprodução


Ketty Valêncio esclarece que a representação é algo indispensável para a sociedade.


“São fragmentos de narrativas que atuam do nosso imaginário, que desse modo rompem com os padrões que estão estabelecidos há séculos. Agem como ferramentas transformadoras, para a possibilidade de um presente e um futuro descolonizador, antirracista e equitativo.”


Porém, ainda há muito a se trabalhar em relação à representação negra na literatura.

Maria Aparecida explica que, apesar do perceptível avanço em relação à diversidade de livros usados para trabalhar a questão em sala de aula, a representação negra na literatura infantil ainda é uma temática muito recente.


“Todo ano chega uma remessa nova de livros, porque surgem outras histórias, outras temáticas. Imagina que no meu início de carreira você tinha algum livro com uma princesa que era negra. Não tinha. Isso é muito recente. É um tema que ainda vai ficar por muitos e muitos e muitos anos.”


A jornalista e publicitária Thatiane Teixeira, que desde criança teve acesso à livros que, em suas próprias palavras, “saiam da óbvio, ensinavam o quanto somos capazes de superar os obstáculos e vencer os preconceitos”, tem em sua própria vivência um exemplo da necessidade de se apresentar obras deste tipo para crianças.

Foto: Reprodução

O rapper Emicida escreveu seu próprio livro com protagonismo negro
O rapper Emicida é autor de "Amoras"

“Eu acredito que essa construção que tive desde a infância contribuiu para que eu passe a enxergar as pessoas de maneira igual, e principalmente, aceitasse com mais consciência a individualidade de cada um”, declara. “Se não fosse por esse incentivo que tive em casa, acho que teria sofrido muito mais para encarrar os preconceitos que já enfrentei.”


Matheus, que passou a se ver em personagens de livros em uma idade mais tardia, vê em sua própria aparência os reflexos positivos dessa representação.


“Hoje em dia eu procuro mais sobre livros de literatura focado em personagens pretos”, diz, exemplificando um dos reflexos logo depois. “Consegui até a noção de pertencimento para deixar o meu cabelo crespo crescer.”


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