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Amy Winehouse: da vida para a história

Foto do escritor: Gabrielle Caroline
Gabrielle Caroline
29 de mai. de 2020
4 min de leitura

Atualizado: 26 de jun. de 2020


Amy Winehouse - 1983 - 2011 (Foto: Rolling Stone)

No dia 23 de julho de 2011, Amy Winehouse saia da vida e para entrar para a história da música.


Encontrada morta em sua casa, em Londres, aos 27 anos, ela juntava-se ao Clube dos 27, mítico e célebre grupo formado por artistas que também morreram com essa idade. A causa de sua morte foi considerada indeterminada pelos peritos na época apesar da crença de sua família que o motivo de sua partida tão repentina era uma tentativa brusca de largar o vício em álcool e drogas, que a acompanhava desde o começo de sua vida adulta.


A carreira de Amy Winehouse foi tão curta quanto explosiva: começou aos dezesseis anos, tocando com uma banda de jazz, para pouco depois começar a se apresentar apenas com seu violão e, aos vinte anos, lançar seu primeiro disco, Frank, em 2003. Criada em uma família judia no bairro de Southgate, em Londres, a cantora cresceu ouvindo de Frank Sinatra e Dinah Washington a Salt-n-Peppa. Todas essas influências foram importantes para a composição e produção de Back to Black, seu magnum opus. Porém, nenhuma delas foi tão significante quanto seu namoro, casamento (e consequente divórcio) com Blake Fielder-Civil, um assistente de produção de vídeos que acabou sendo o principal assunto da maioria das letras do disco.


Conhecida por sua voz rouca e melancólica, à la divas do soul e do jazz, como Janis Joplin e Billie Holiday, Amy criou, com suas histórias sobre coração partido, sua irreverência e um toque de autodepreciação, um clássico instantâneo. Back to Black vendeu, até o ano de sua morte, dez milhões de cópias pelo mundo, além de ter sido um sucesso de crítica.


"Nunca vi nenhum outro artista improvisar como se alguém estivesse enfiando uma faca em seu coração", conta o vocalista de apoio e amigo íntimo de Amy, Zalon Thompson. "Quando ela cantava, era como se saísse de seu diário. Soava muito simples, mas ela conseguia estabelecer uma conexão. Ela era uma verdade ambulante."


Produzido por Mark Ronson, que à época era um DJ com algumas composições para artistas como Lily Allen e Christina Aguilera, Back to Black contou com instrumentais da banda de soul Dap-Kings para poder ter o som retrô que se adequava às músicas e ao visual de Amy.


"Amy tem um visual cool, é brutalmente honesta em suas músicas. Faz tanto tempo desde que alguém no mundo do pop deu as caras e reconheceu seus próprios defeitos, já que todo mundo está tentando tanto projetar a perfeição. Mas Amy diria algo como: 'É, eu enchi a cara e caí. E daí?' Ela não é de se autolouvar e não está atrás de fama. Ela tem sorte de ser boa, porque não precisa ser", Ronson declarou à Rolling Stone na época do lançamento do disco.


Foto: Reprodução

Capa do Back to Black
Capa do Back to Black

Mas nem a aclamação da crítica, os elogios dos mais próximos ou o sucesso na carreira foram capazes de salvar Amy. Sua carreira começou a declinar assim como o casamento com Blake Fielder Civil, que ia e vinha da prisão em meio à acusações de agressões e subornos. A obrigação de divulgar o disco e a exposição sofrida também fizeram sua parte na destruição da pessoa de Amy Winehouse.


"Ela estava sempre questionando seu próprio talento", declarou Dougie Charles-Ridler, um amigo de longa data e proprietário do Hawley Arms, um dos pubs favoritos da cantora. "Ela tomava uma tequila ou uma taça de vinho só para acalmar os nervos. E passou a precisar de mais conforme o tempo foi passando. E perdeu o controle."


Entre idas e vindas constantes de clínicas de reabilitação, vazamentos de vídeos e fotos da cantora usando drogas, Amy, em 2009, se retirou para a ilha de Santa Lucia, no Caribe, onde viveu por vários meses em uma espécie de reabilitação, fazendo amizade com moradores locais e convivendo com eles, se aproveitando da privacidade e quase anonimato que não tinha há anos.


"Ela ajudou muita gente aqui", Marjorie Lambert, proprietária de uma restaurante na ilha, delcarou em entrevista "Era amiga de todos e amava as crianças. Ela ficava por aí exatamente como a gente, sentada, comendo junto, rindo junto, contando piadas, sabe?"


O divórcio com Fielder Civil foi oficializado em agosto daquele ano, com acusações de adultério de ambas as partes, levando Amy de volta aos holofotes midiáticos. Dessa vez, em uma fase de recuperação: Amy parecia feliz e saudável quando voltou ao estúdio para gravar, com Mark Ronson, um cover de “It’s my party”, sucesso de Lesley Gore, e para fazer parte de um cover de “Body and Soul” para o disco Duets II de Tony Bennett.


Em meio à sua recuperação, Amy chegou a fazer um show no londrino 100 Club antes de iniciar uma turnê de 12 datas pela Europa. O primeiro show da turnê foi chamado de desastroso: embriagada, ela esquecia letras, deixava que a banda cantasse sozinha e começou a ser vaiada pelo público, em quem atirou um dos sapatos. A turnê foi cancelada após esse show.


"Antes de ela partir, tudo parecia bem - ela fez um show no 100 Club [em Londres], um grande show", explicou Charles Ridler, do pub Hawley Arms. "E ela parecia realmente para cima. A cor de seu rosto estava bem melhor e ela parecia ter ganhado peso, e era como a velha Amy novamente."


A última aparição publica de Amy foi feita cerca de uma semana antes de sua morte, dançando timidamente em um show de Dionne Broomfield, sua afilhada musical, na London Roundhouse.


Amy Winehouse morreu cheia de planos. Pretendia lançar um novo disco, no qual estava trabalhando durante seu período de descanso em Santa Lucia, planejava viagens para celebrar aniversários e idas à festas de amigos. No funeral dela, realizado três dias depois de sua morte, Mitch Winehouse, pai da cantora, contou aos presentes que ela não estava deprimida, e que havia passado a noite anterior à sua morte em seu apartamento, feliz, tocando bateria e cantando.


Após a morte de Amy, o produtor Salaam Remi, que trabalhava com ela em seu novo disco, deu uma declaração que não poderia ser mais verdadeira sobre sua vida e obra: “Ela estava melhor do que há três anos, com certeza, e em outro clima. Ela se foi, mas o que ela fez vai viver para sempre."


Este texto é uma reconstrução da matéria “Amy Winehouse 1983 – 2011”, publicada no site da Revista Rolling Stone Brasil em 11 de agosto de 2011.

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