Leonardo da Vinci: artista, engenheiro, matemático, cientista e gay

Atualizado: 26 de jun. de 2020

Foto: Reprodução
Filho ilegítimo, gay, vegetariano, canhoto, muito disperso e, às vezes, herético. Essa descrição passaria despercebida caso se tratasse de qualquer pessoa comum, mas pode chocar quando se descobre a quem ela pertence: Leonardo da Vinci, pintor, engenheiro, cientista e um dos grandes nomes do Período Renascentista.
O fator do choque pode vir de qualquer uma das partes da descrição, reprodução exata das palavras de Walter Isaacson na biografia do artista (Leonardo da Vinci, 2017, Editora Intrínseca), mas geralmente dá-se pelo fato de que Leonardo é descrito como gay.
Apesar de, durante a Era Renascentista, a homossexualidade ser vista como sodomia e a pena para tal crime ser a pena de morte, era comum ver relacionamentos homossexuais em certas cidades. Florença, na época uma cidade-Estado da Itália que se tornou o berço do renascimento, era um desses exemplos: mais tarde, a gíria florenzers se tornou utilizada na Alemanha para se referir à um grupo de pessoas homossexuais.
Segundo estudos, Leonardo Da Vinci, nascido na República de Florença, era uma das pessoas que fizeram jus à gíria.
Documentos demonstram que Leonardo foi acusado de sodomia em algum momento de sua juventude, e, em seus escritos, é possível perceber que o polímata possuía um afeto especial por Gian Giacomo Caprotti, apelidado por ele de Salaí (em tradução literal, “diabinho”), um de seus aprendizes que supostamente serviu de modelo para diversas de suas obras, incluindo a pintura mais famosa de Leonardo, a Mona Lisa. Por isso, a sexualidade de Da Vinci ainda é objeto de curiosidade e debate para diversos historiadores pelo mundo, incluindo nesta lista Sigmund Freud, considerado o pai da psicanálise.
Foto: Reprodução

Em seu ensaio “Leonardo Da Vinci, a lembrança de sua infância”, ele analisa um dos escritos do artista, afirmando que a homossexualidade de Leonardo era latente, porém não praticada: algo que é de comum acordo entre diversos estudiosos que afirmam que Leonardo praticou o celibato depois do trauma causado pela denúncia de sodomia, enquanto outros afirmam que o celibato não foi uma doutrina seguida pelo artista.
“Existem muitos boatos acerca de muitos assuntos ligados aos artistas (não só desse período) […] Gosto dele [Walter Isaacson] trazer à luz o comportamento homossexual do pintor, este sim declarado pelo próprio artista em seus cadernos”, explica Luciana Ramalho Teixeira, professora de História da Arte.
A falta de discussão acerca da sexualidade de Da Vinci pode ter origem devido ao fato de que, devido à influencia da Igreja Católica Romana na Europa durante o período renascentista, a homossexualidade, antes relativamente comum, passou a ser vista como uma prática totalmente ilegal. Isso não prejudicou apenas a discussão em torno de Leonardo: existem indícios que, além dele, Donatello e Caravaggio também eram homossexuais.
“A intenção de marginalizar, se não eliminar, qualquer elemento que nos faça [a comunidade LGBTQIA+] servir de exemplo de vida, pondo uma reflexão da importância do papel da comunidade na sociedade em que habita, é um projeto real e isso respinga nas personalidades históricas”, comenta Gabrieli Chaves, militante do Levante Popular da Juventude, sobre a inexistência da discussão em torno das sexualidades destes artistas. “Imagine se o mundo souber que grandes pensadores e artistas como, por exemplo, Leonardo da Vinci, são LGBTs que, por sua vez, influenciaram com suas contribuições artísticas e intelectuais que foram disseminadas e reproduzidas em várias categorias do mesmo sistema que os oprimia.”
Gabrieli também explica por quê há a necessidade da discussão em torno da sexualidade de figuras históricas.
“Pensando na necessidade do ser humano se ver no outro afim de criar, recriar valores, costumes e pertencimento social, os artistas são os maiores personagens na história que exteriorizam, fomentam e reproduzem a cultura em que está. A representatividade nos estimula [a comunidade LGBTQIA+] a transformar a estrutura social, pois quando vemos os nossos como músicos, atores, pintores etc., sabemos que podemos sim estar em todos os lugares.”
Foto: Reprodução

Da Vinci é autor não só de algumas das pinturas mais conhecidas pela humanidade, mas também de protótipos de tanques de guerra, helicópteros, alguns projetos com energia solar e até mesmo de uma calculadora. Tendo atuado nos campos da engenharia, da anatomia e até mesmo da música, Leonardo Da Vinci é considerado um dos maiores gênios da humanidade, e a discussão em relação à sua sexualidade e, consequentemente de outros artistas de qualquer época, pode não ser tão relevante quando se trata de seus trabalhos.
“Se passo a tomar por norma que todo pintor heterossexual pinta da forma X e todo pintor homossexual pinta da forma Y, estou cometendo, no mínimo, uma injustiça”, explica Luciana. “Por isso, apesar da importância de se saber que, dada à homossexualidade, Leonardo pintava formas masculinas mais sexualizadas e formas femininas mais castas, não se pode nunca generalizar.”




Comentários