Entenda a gordofobia por meio de piadas disseminadas na quarentena
Atualizado: 26 de jun. de 2020
A criação de publicações gordofóbicas banaliza o corpo acima do peso e obeso, e prejudica a saúde metal. As pessoas precisam saber por que não podem fazer isso.

Com o estado de calamidade em decorrência a pandemia da doença coronavírus e a chegada da quarentena mundial, você provavelmente deve ter visto alguma publicação que envolva memes e piadas nas redes sociais. Ou pode ainda ter compartilhamentos por grupos de WhatsApp, como “estou engordando muito na pandemia, quando ela acabar eu sairei de casa rolando”. Isso dá a entender que a sociedade, em geral, está comendo de forma exagerada durante o isolamento social e que isso possivelmente não é adequado, sobretudo na condição de um corpo acima do peso ou obeso.
“É problemático demais essa depreciação do ‘engordar’ como a pior coisa do mundo. Existem pessoas no momento sem ter o que comer, sabe? Além de problemático é extremamente não empático”, opina o Vitor Lima, de 25 anos, modelo, cantor e influenciador digital. Ele se considera um militante do corpo gordo e da causa LGBT. Os seus conteúdos exploram debates sobre gênero e orientação sexual, problematizações sociais, além de postagens sobre a autoafirmação do corpo acima do peso.
“As pessoas precisam entender que respeito e empatia são fundamentais nas relações humanas. Não vejo motivo de não ter respeito e empatia por pessoas gordas (...)", diz Vittu.
“As pessoas precisam entender que respeito e empatia são fundamentais nas relações humanas. Não vejo motivo de não ter respeito e empatia por pessoas gordas. As pessoas são gordas por diversas questões que nos perpetuam e nos perseguem. Pessoas são gordas por biotipo ou por genética. Tudo o que pedimos: respeito, consciência e empatia”, afirma Vittu, como é conhecido nas redes sociais.

O influenciador digital, que mora em São Paulo, publicou uma corrente titulada, “A pança / o rosto”, em uma rede social no começo do ano – enquanto a pandemia ainda estava em estado lento –, teve o alcance de 2,5 milhões de pessoas de forma direta e indireta, e conta sobre o modelo de conteúdo que as pessoas deveriam seguir. “Eu acredito em conteúdos coesos e inteligentes, não acredito e nem gosto de quem faça conteúdos sem responsabilidades e apenas por likes e engajamento”, explica.
A nutricionista Carol Gomes, formada pela Universidade de Guarulhos, enfatiza o que a circulação de má influência nas redes sociais causa nas pessoas. “Uma vida postada por influenciadores digitais tem afetado a autoestima de pessoas que têm um cotidiano bem diferente. Muitas vezes, ao invés de inspiração, gera uma decepção com si mesmo por não ter a vida ‘perfeita’. É muito triste ver essa realidade, pois afeta muito a saúde mental da população. Nos cobramos o tempo inteiro por ser uma pessoa 100% em tudo. Nossa vida é muito mais além de um post”.
Dados divulgados em 2019 pelo Ministério da Saúde, mostram que 55,7% da população brasileira está com o índice de massa corporal (IMC) acima do valor considerado normal, pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Já o número de obesos se encontrava estável de 2015 a 2017, com pequena variação. A nutricionista informa sobre o aumento desses índices no país. “Os números sobem e a nossa preocupação maior é em relação a indústria, que fornece alimentos ultraprocessados a nossa população”.
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Ela declara que existe um projeto para diminuição de açúcares utilizados em alimentos industrializados até o ano de 2022. “O Ministério da Saúde divulgou em 2019 que pretende diminuir a quantidade de açúcares utilizada em alimentos industrializados até 2022. Esses alimentos têm um baixo custo e praticidade a população. Nós, profissionais da saúde, estamos em uma luta constante para trazer mais qualidade de vida e saúde as pessoas!”.
Carol tem um restaurante online, chamado Naturê Cozinha Saudável, e também usa suas redes sociais de forma consciente, publicando receitas saudáveis para os seus seguidores e pacientes, inclusive nesse período de quarentena. Ela alerta sobre adaptar a alimentação durante tal situação. “Nossa rotina mudou do dia pra noite e de repente nos deparamos dentro das nossas casas com a rotina alterada. Se tivermos organização com a nossa alimentação, veremos o que é prioridade!”, comenta.
Ainda cita a necessidade do consumo correto na alimentação nesse momento crítico. “Você pode deixar para comer e comprar comidas calóricas como pizza e hambúrgueres apenas uma vez na semana. Invista em sua saúde, aproveitando esse tempo de quarentena. Procure receitas saudáveis na internet para fazer em família! Evite comprar alimentos ultraprocessados. Faça isso por você e pela sua saúde”, completa.
“A gente começa a ter uma sociedade igualitária em relação a corpos quando tirarem da cabeça que ser gordo é ser infeliz e não saudável”, enfatiza Thifani Silva.
Thifani Silva, de 21 anos, estudante de Marketing do Centro Universitário IBMR em Botafogo, no Rio de Janeiro, como uma mulher gorda, alega que ainda a sociedade vai compreender a existência de pessoas gordas, que são saudáveis e felizes “a partir do momento em que a palavra ‘gorda’ não for uma ofensa e sim um elogio, e não só no Brasil, mas como no mundo todo”. Ela acredita que a “gente começa a ter uma sociedade igualitária em relação a corpos quando tirarem da cabeça que ser gordo é ser infeliz e não saudável”.

Em contraponto, a Gabrielle Carvalho de 20 anos, estudante de Nutrição e Dietética, na Universidade Cruzeiro do Sul em São Paulo, fala que a mídia banaliza os corpos acima do peso e obesos, o que prejudica a autoestima dessas pessoas:
“De modo geral, a mídia influencia nos critérios avaliativos dos ditos ‘padrões de beleza’, que por serem ou estarem acima do peso da média geral, são menos saudáveis que uma pessoa magra”, diz. “No entanto, em grande parte dos casos há fatores determinantes, como metabolismo e projeção de algumas doenças crônicas não transmissíveis que podem interferir para que um indivíduo não consiga perder peso. Mesmo que ele tenha uma alimentação saudável como padrão”, concluí.
A nutricionista Carol, que tem seu consultório particular voltado ao controle de qualidade em restaurante industrial, informa que as pessoas acima do peso e obesas podem ter uma vida saudável até um determinado período. “De acordo com a Sociedade Brasileira de Diabetes, um estudo divulgado em 2018, indivíduos acima do peso podem ter uma vida saudável até um determinado período. A obesidade provém também de um balanço energético negativo, devido à falta de atividade física e à má alimentação”.
Em relação a isso, ela completa a sua declaração falando sobre cuidados a serem tomados com a saúde em estado de obesidade. “Sabemos que um excesso de gordura corporal pode trazer consequências futuras relacionadas à saúde, como diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares, entre outros. Nem todo obeso apresenta doenças e irregularidades metabólicas. Porém, futuramente sabemos que a saúde desse indivíduo pode obter complicações, devido ao excesso de peso”.
Além de policiar o que se compartilha nas redes sociais antes da pandemia, Thifani explica por qual razão deve evitar posts com piadas e com memes gordofóbicos. “As pessoas ainda não sabem a vivência do corpo gordo em uma sociedade gordofóbica e não entendem o que é um corpo gordo. É mais fácil usar a frase, ‘ganhei essa barriga na quarentena e está tudo bem com isso!’”, fomenta.
Além disso, ela fala sobre o que acredita ser necessário para não entrar na pressão de ser produtivo em 100% do tempo. “Se você tiver algum tipo de fé, lembrando de que não precisa de Deus pra isso – e você pode ser seu próprio Deus –, exercite essa fé. Mantenha-se positivo e mantenha as pessoas protegidas e perto de você. A primeira e última coisa que nos resta é sermos positivos e pacientes”, analisa.
Em função do isolamento social, a nutricionista não deixa de lado sua opinião a cerca dos internautas realizarem gordofobia por meio de piadas e de memes. Ela ainda fornece recomendações às pessoas que estão passando por essa situação maléfica e prejudicial à saúde mental:
“Muito ruim ver pessoas com uma patologia sendo motivo de piadas. Nós [profissionais] sabemos o quanto um indivíduo obeso sofre emocionalmente... Não é apenas sobre o que a pessoa come, a obesidade vai muito além disso. A minha recomendação para as pessoas que têm sofrido isso: ignorem! Não se sinta inferior por estar fora de um ‘padrão estético’ que a sociedade impõe”.




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