O movimento Mães Pela Diversidade abraça a família e luta em prol da comunidade LGBTQI+
Atualizado: 26 de jun. de 2020
De pai evangélico participando do coletivo até a promoção da cultura, da arte, da educação e da tolerância à orientação sexual. A luta diária dessas famílias busca direito civil, político e social aos LGBTQI+

Em um encontro espontâneo em 2014 na capital paulista, foi fundado o movimento Mães pela Diversidade (MPD). A reunião atraiu mães e pais de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais de todo o Brasil, por conta da preocupação com o avanço do fundamentalismo religioso, da insegurança jurídica, do preconceito e da violência contra a população LGBTQI+. Hoje, o projeto reúne em torno de 1.200 pessoas no estado e mais de 2 mil pessoas em outros 24 estados do país, lutando pelos direitos civis, políticos e sociais de seus filhos e filhas. O grupo, que leva apoio e mais visibilidade, para a comunidade LGBTQI+ inclui diversos objetivos, como promover a cultura, a arte, a educação, a saúde, a assistência social e o voluntariado, estimulando o respeito e a tolerância à orientação sexual, à identidade de gênero e às diferenças culturais, sociais e raciais. Durante esses anos, os encontros entre mães e pais também se tornaram um acolhimento às famílias de LGBTQI+, que diariamente têm seus direitos violados. Edilaine Cagliari, seguidora do Mães pela Diversidade nas redes sociais, escritora e lésbica, relata como descobriu a associação e opina sobre a sua importância. “No ano passado, organizei um concurso de contos LGBTQI+ e pedi ajuda ao grupo para o financiamento coletivo do livro. Nos ajudaram e conseguimos financiar com sucesso nossa duologia [sequência de dois livros]”, diz. “Acho esse trabalho fundamental, visto que, não raro, é em casa que a diversidade encontra os maiores desafios, muitas vezes moldando o indivíduo de uma forma extremamente prejudicial para toda a vida”, explica.

Com 42 anos, Edilaine fala sobre a fase de autoaceitação como lésbica há duas décadas. “Foi muito doloroso e complicado, em 1997 eu não conhecia nenhuma lésbica e nem sabia que isso existia. Quando percebi que havia me apaixonado por outra mulher, entrei em pânico e tomei várias decisões erradas, levei muitos anos para me perdoar. Busquei ajuda e orientação, mas só o que encontrei foram os tabus como ‘é fase, vai passar’”.
Ela salienta sobre as famílias que descobriram a orientação sexual do filho ou da filha. “A quem [família] não está sabendo lidar com a ‘novidade’, busque ajuda, procure grupos e pessoas que vivem essa realidade para compreender a melhor o assunto, que ainda é desfocado por tabus e crenças irreais”.
E ainda pede as famílias que, por alguma razão, decidiram expulsar suas crias de casa, para repensar essa decisão e recorrer a outra alternativa. “A quem agiu dessa forma expulsar de casa], aconselho que busque em si quais os fatores que levaram a essa decisão tão radical, muitas vezes são feridas ou traumas que sofreu, e pode curar. Que encontre o que provocou essa falta de amor e empatia”, finaliza.
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Segundo dados levantados pelo Brasil de Fato, a população LGBTQ no Brasil em 2017 estava estimada em 20 milhões de pessoas (não levando em conta as pessoas intersexo) – o número já representava cerca de 10% da população brasileira. Entretanto, nosso Congresso Nacional conta com poucos representantes de toda a diversidade do país.
Entre eles, o deputado Fábio Felix (PSOL-DF). O David Miranda (PSOL-RJ), que substituiu o Jean Wyllys (ex-deputado do PSOL-RJ) – onde renunciou ao cargo, por ameaças. O senador Fabiano Contarato (REDE-ES). A advogada e deputada Robeyoncé Lima (PSOL-PE). A cantora e deputada Leci Brandão (PC do B-SP). E a deputada, Isa Penna, Erica Malunguinho e Erika Hilton (PSOL-SP). Sendo que a última, ao lado de outras oito pessoas divide uma candidatura coletiva.
Seu filho(a) continua a mesma pessoa, a única diferença é que ama o mesmo sexo, isso não faz dele um mau caráter”, diz Clarice Pires.

Sendo coordenadora do coletivo no estado de São Paulo e uma das primeiras mães a adentrá-lo, a aposentada Clarice Pires, de 68 anos, informa que para o MPD traçar um caminho de forma correta, conta com profissionais especializados. São advogados, psicólogos, psiquiatras, empresários, além de órgãos que militam pela mesma causa, como o Grupo de Advogados pela Diversidade Sexual (GAVDs), o Grupo de Pais Homosexuais (GPH), o Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM), a Associação Brasileira de Famílias Homotransafetivas (ABRAFH), e mais alguns outros.

Clarice, que já sofreu bastante preconceito junto a sua irmã e sobrinho por serem LGBTQI+, tem um filho gay, e explica como foi o processo de aceitação. “Eu aceitei meu filho, desde o momento que eu soube que estava grávida, o mesmo aconteceu depois de saber que ele é gay. Eu caminhei junto com ele e sempre estou o apoiando”. Como experiência própria, ela alerta o que a família deve fazer ao descobrir a orientação sexual de seu filho(a) e sem virá-lo as costas. “Para a família: entender, apoiar e se informar. Seu filho(a) continua a mesma pessoa, a única diferença é que ama o mesmo sexo, isso não faz dele um mau caráter”, completa.
Miguel Arcanjo, jornalista e especialista em Mídia, Informação e Cultura pela USP e mestre em Artes pela Unesp, além de membro da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA), informa que conhece o Mães Pela Diversidade. “Conheço e sei da importância de seu trabalho e acolhida à população LGBT+ vulnerável, e admiro muito o que essa entidade faz”.
Ele tem um blog focado em jornalismo cultural e relata que acompanha inúmeros projetos em São Paulo, como alguns voltados à comunidade LGBTQI+. “Acho muito importante o Festival Mix Brasil, já tive o privilégio de ser jurado, a convite do Canal Brasil, no ano passado. Os Satyros [grupo teatral] foi pioneiro ao incluir atrizes transexuais em seu elenco. O Museu da Diversidade também tem papel primordial ao valorizar a arte e os personagens LGBTQI+, bem como o recém-inaugurado Centro Cultural da Diversidade”.
Em relação a isso, o jornalista ainda fala em como a cultura e a arte estão interligadas ao público LGBTQI+. “A comunidade LGBT+ é uma parcela da sociedade muito interessada em atrações culturais e que a vivencia de forma cotidiana. É um público que gosta de frequentar teatros e a noite paulistana, sobretudo as casas especializadas. Consumir cultura faz parte da vida da maioria dos LGBT+. Com certeza quem acessa a bens culturais imateriais ganha e muito em sua vida, conquistando novas formas de enxergar o mundo e evoluindo como pessoa e como cidadão. A arte sempre transforma as pessoas para melhor”.
A associação tem um coordenador de pais, o Washington Pereira, de 54 anos, que explica como seu filho, Vitor Brumatti, de 27 anos, se assumiu. “Há seis anos meu filho se assumiu e nossa relação cada dia foi ficando mais difícil. Então eu senti que precisava de ajuda, e procurando na internet, não achei um grupo ou assistência aos pais de LGBT, e eu precisava dividir com alguém aquilo tudo... Aí me deparei com o coletivo! Conheci através da Clarice, fui à minha primeira reunião junto da minha esposa e lá eu era o único homem. Foi quando comecei a entender o que era ser pai de um filho gay”.

Em consequência a isso, ocorreu a descoberta do Mães Pela Diversidade e a oportunidade de se tornar um representante. “Eu ingressei no grupo em 2017, comecei a ser muito ativo em relação ao projeto e me escolheram para coordenar os pais em outubro de 2018”, diz. “A minha função é acolher os pais que entram no projeto, conversando com o pai que recém descobriu a orientação de seu filho. Têm algumas mães que me procuram para chamar aquele pai que não entende a situação e peço que compreenda um pouco mais o seu filho", relata.
O Washington, que é evangélico conta a sua experiência dentro da doutrina. “Não sou mais um evangélico praticante, mas tenho minha fé, creio na palavra e na Bíblia. Eu era da Congregação Cristã do Brasil. Mas eu senti que, de repente, para amar a Deus e seguir seus ensinamentos não precisa de uma estrutura, a igreja é formada por pessoas e por concreto. Lá é muito do que lhe convém, pegam muita informação do Antigo Testamento e justificam em cima disso”.
Ele explica o seu argumento citando um exemplo. “Em Levítico, o ‘homossexualismo’ é pecado, mas também está que comer camarão é pecado, usar duas peças de roupa de tecidos diferentes, que trabalhar aos sábados também é, todos esses pecados levavam a punições como morte e apedrejamento. Não me sentia bem dentro da igreja física e as pessoas falando sobre a homossexualidade sem conhecer os seres humanos”.

“Eu quero voltar a frequentar mas quero uma igreja que respeite o meu filho, porque se não serve pro meu filho, não serve para mim”, declara Washington Pereira.
O gerente comercial paulistano ainda comenta que pretende voltar a frequentar cultos, porém quando a doutrina das igrejas aceitarem seu filho homossexual. “Hoje conheço muito LGBT que é mais caridoso, honesto e íntegro que muitos dentro da igreja. Antes do meu filho se assumir, eu já estava meio afastado, agora me afastei completamente. Eu quero voltar a frequentar a igreja física, mas eu quero uma igreja que respeite o meu filho, porque se não serve pro meu filho, não serve para mim”, enfatiza.
Como coordenadora nacional do grupo voltado a mães e pais de trans, Ana Paula Camargo, de 46 anos, fala sobre a sua filha transgênero, Amora, de 8 anos, que antes da percepção da família, se mutilou e tentou suicídio. “Nós descobrimos que havia a possibilidade de Amora ser trans com 2 anos, e procuramos uma psicóloga. Ela sabia menos que nós, pediu que pesquisássemos na internet, dando exemplo o filho da Gretchen e da Angelina Jolie. Sai de lá arrasada e sem rumo! Hoje em dia ela tem acompanhamento com profissionais conceituados”.

Ela diz o quanto o Mães Pela Diversidade foi importante no processo com a sua filha. “As pessoas geralmente falam que têm um amigo ou conhecido LGBT, mas eu nunca tive acesso a comunidade, sabia pouco sobre. Entrei logo na fundação do grupo, em 2014. Comecei os cursos de capacitação e aquele meu choro que estava retido e a tristeza foram se apagando”. Ela completa o seu relato falando o que motiva a continuar no MPD. “O que me motiva é acolher as mães, dar carinho e informações. As mães entram no grupo desorientadas, como eu entrei! Então, para essas mães tenho todo o meu amor, carinho e tempo”.
O projeto que obteve reconhecimento por diversas mídias de comunicação, foi até documentado pelo programa Conversa com Bial, em 2018, no qual trouxe a presença do MPD, relatando suas experiências por meio de seus filhos, e deixando claro as bandeiras que levantam. No vídeo do programa, disponível no Facebook, o Washington abriu a sua vida contando o seu depoimento e os momentos de intimidade com o filho. Confira em:
Por conta da pandemia, que assola o mundo em 2020, Clarice cita que os encontros com os amigos do projeto tomaram outras proporções, e como está sendo a movimentação de novos voluntários. “Nós estamos fazendo reuniões via Zoom [aplicativo de conferência]. Hoje em dia, estão entrando algumas mães no grupo, bem poucas”. De forma otimista, ela responde qual o objetivo do grupo pós-pandemia. “Continuar nossa luta diária!”
A coordenadora ainda convoca as famílias e explica às que queiram participar do Mães Pela Diversidade ou de qualquer projeto de voluntariado, a importância em ajudar. “A ajuda é sempre bem-vinda, é sempre necessária para termos um mundo melhor! Nosso grupo é de luta, é por a ‘cara no sol’, é mostrar que somos família, que nossos filhos existem e merecem respeito. Precisamos de pessoas que não tem medo de enfrentar o mundo LGBTfóbico!”, conclui.
Para mais informações sobre o projeto, filiar-se e para acompanhá-lo nas redes sociais, acesse o site: https://maespeladiversidade.org.br/




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